13 de jul. de 2026
DONA ROSA - CAFÉ NO CACO
7 de abr. de 2025
BENZEDORES DO SERTÃO
O Nordeste brasileiro tem uma cultura religiosa rica e peculiar. Um legado de fé, transmitido de geração em geração, que encontra nos benzedores e rezadores seus mais fervorosos guardiões, em um tempo onde a medicina moderna ainda não alcança os rincões mais distantes, são eles, os benzedores, que representam a esperança, o alívio e a cura para as aflições do corpo e da alma.
Em tempos de aflição e em um cenário de dificuldades e escassez, a figura do benzedor sempre se ergueu como, doutores do sertão, são homens e mulheres simples, dotados de uma fé inabalável e que tem consigo o conhecimento ancestral das ervas e das rezas. Mães, aflitas com seus filhos doentes, encontram neles um porto seguro, um alento para as dores que assolam seus pequenos.
Dentre as doenças mais comuns das crianças podemos destacar:
Quebranto: Quando o olhar ou a admiração excessiva de alguém sobre a criança, causa desânimo e a tristeza, o benzedor entra em cena, com suas rezas e ramos de ervas, para afastar o "mau olhado" e restaurar a saúde e a alegria da mesma.
Vento Caído: Um susto, um medo repentino, e a criança adoece, com febre, dor de barriga e choro incessante. O benzedor, com sua sabedoria acalma o corpo e a alma, dissipando o "vento caído" e trazendo a saúde de volta.
Cobreiro: A inflamação na pele, manchas vermelhas precedidas de ardência e dor, o doente encontra alívio nas rezas e ervas medicinais dos benzedores.
Essas rezas em sua maioria tem como parte integrante dos ritos, o uso de ramos de árvores do sertão, como: vassourinhas, pinhão roxo, folhas de mamona e dentre outras. Acredita-se que cada planta possui uma energia e um poder específico, capaz de diagnosticar e curar diferentes doenças. Ao observar a reação das ramos, se murcham ou permanecem viçosas, o benzedor é capaz de identificar a causa do mal e indicar o tratamento adequado, como: rezar sete ou nove sextas-feiras seguidas, apenas uma vez e assim por diante, varia muito, depende de cada rezador, conforme sua crença e a fé do doente.
A Alma Africana no Sertão: Rituais de Cura com ritos Africanos
Uma das principais características da cultura e da formação do povo brasileiro, é o sincretismo religioso, é comum identificarmos ritos da religiosidade africana integrada aos ritos do cristianismo. Podemos ver a seguir algumas doenças comuns no nordeste que acometem aos adultos, onde a cura das mesmas se dá por rezas e rituais mais complexos, carregados de simbolismo. Uma mistura de fé, crenças populares e ritos africanos, que revelam a riqueza da diversidade da cultural e religiosa nordestina.
Espinhela Caída: A dor no peito, a dificuldade de respirar após um esforço físico, é tratada com rezas e rituais que mesclam o sagrado e o profano. O benzedor, com suas mãos firmes, ergue as mãos do doente acima da cabeça, em um gesto de súplica e cura.
Um outro tipo de reza é o uso do pilão de madeira e a pimenta do reino. Rito: Enquanto reza, o benzedor serve ao doente um pouco de pimenta do reino pisada, ele o engole, enquanto isso o rezador pega a cabeça do enfermo e faz o gesto de colocar-la dentro do pilão três vezes, sempre tira, ele pisa no pilão para despertar o corpo e afastar a dor. O pilão como símbolo da força e da transformação, é pisado com fé, como se esmagasse a doença.
Reza de cortar a "Íngua": A dor na virilha precedida de febre, sinal de inflamação e sofrimento, era combatida com um ritual peculiar. O benzedor, com uma faca, traçava o contorno do pé do doente no chão, como se demarcasse o território da doença. Em seguida, com a mesma faca, o Benzedor faz pequenos cortes no desenho do formato do pé, como se estivesse cortando e eliminando a doença.
Reza de Costurar a Doença: Um pano pequeno, uma agulha e linha, e a fé inabalável do doente, em cima do machucado, o Recado costura o pedaço de pano com cuidado e devoção ao mesmo tempo em que reza, como se estivesse costurando a própria dor, fechando a ferida e restaurando a saúde.
Um Chamado à Preservação: Valorizar o Legado dos Benzedores
É fundamental que valorizemos e preservemos essa tradição tão rica e importante para a cultura nordestina. Os Benzedores e Rezadores do sertão, são verdadeiros patrimônios humanos, detentores de um conhecimento ancestral que merece ser reconhecido e transmitido às futuras gerações. Ao valorizar e apoiar essa prática, estaremos contribuindo para a manutenção da identidade cultural do Nordeste e para a promoção do bem-estar e da saúde das comunidades sertanejas.
A história dos Rezadores do Nordeste é um mosaico de fé, tradição e esperança, entrelaçada com a vida do sertão e suas peculiaridades, onde cada rosto marcado pelo tempo e em cada gesto de cura, reside um legado de amor ao próximo e devoção à crença popular.
Como gesto de reconhecimento a esses benfeitores espalhados pelos Nordeste, apresento-lhes um pouco da biografia de alguns benzedores do interior de Quixeramobim - Ceará, esses que, com sentimento de amor e devoção, sempre receberam em suas casas, muitas vezes até fora de hora, adultos ou crianças acompanhados de seus pais aflitos, em busca de cura para suas dores.
Joaquim Tavares Laurentino( o Joaquim Térto), residente na comunidade de Forquilha em Quixeramobim - Ceará, nascido em 7 de abril de 1946. Um guardião da fé e da cura, sua história se entrelaça com crença popular e devoção, marcando a vida de muitos que encontraram em suas rezas um alento para o corpo e a alma.
Aos 15 anos, despertou o dom que o acompanharia por toda a vida, uma vocação que o impulsionou a dedicar-se ao próximo, aliviando dores e aflições com rezas aprendidas com os mais antigos. Joaquim Térto tornou-se um benzedor completo, capaz de curar desde o quebranto que aflige as crianças até o mal jeito que atormenta os adultos.
Sua fama se espalhou pelos sertões, atraindo pessoas de longe em busca de seus serviços. Acredita-se que suas rezas são tão poderosas que, mesmo à distância, através de uma roupa ou foto, ele consegue alcançar o doente e trazer-lhe a cura. Há relatos de pessoas desenganadas pela medicina que, após as rezas de Joaquim Térto, encontraram a saúde do corpo e da alma.
Com seus 79 anos de idade e em plena atividade vocacional, o humilde e generoso Joaquim Térto, jamais cobrou por seus serviços, para ele, rezar é um dom divino, um presente de Deus que não pode ser comercializado, sua maior recompensa é ver o sorriso no rosto daqueles que encontram alívio em suas rezas. Com a sabedoria de quem vive em comunhão com a fé, seu Joaquim nus ensina que o principal ingrediente da cura é a crença, recorda que, nem mesmo Jesus Cristo conseguiu curar os incrédulos, e que ele é apenas um instrumento de Deus na Terra, e que a cura é uma obra da fé e do amor de Nosso Senhor Jesus Cristo.
A história de Joaquim Tavares Laurentino, o Joaquim Térto, é um testemunho da força da fé e da importância dos rezadores na cultura nordestina, sua história aqui publicada é uma homenagem àqueles que, com simplicidade e devoção, dedicam-se a aliviar o sofrimento alheio, perpetuando um legado de amor e esperança no coração dos mais necessitados.
Maria Francisca da Rocha ( Maria do Luiz Bento)
Em São Miguel, distrito de Quixeramobim, floresce uma história de fé e dedicação: a vida de Maria Francisca da Rocha, carinhosamente conhecida como Maria do Luiz Bento. Nascida em 15 de abril de 1938, Maria personifica a bondade e a esperança, iluminando a vida de quem a procura. Sempre com seu sorriso acolhedor, nunca se nega a atender quem quer que seja, não importa como estar sua condição emocional e física, estar sempre pronta para exercer seu ofício de amor e solidariedade.
Nos anos 80, Maria iniciou sua jornada no mundo da cura através das rezas, aprendendo os primeiros ensinamentos com sua sogra, Maria Bento. Mas foi a partir de 1992, sob a orientação de um senhor conhecido por Luiz Sarará, que o ensinou outras rezas, o qual aprimorou seus dons, e assim sua missão se tornou mais evidente.
De lá para cá, incontáveis pessoas buscaram em sua casa o alívio para suas dores. Moradores de São Miguel e de outras localidades encontram em Maria um porto seguro, um refúgio para o sofrimento. Gerações se beneficiaram de suas rezas: aqueles que foram curados retornam, trazendo seus filhos e netos, perpetuando um ciclo de fé e esperança.
Com um sorriso que irradia amor e compaixão, Dona Maria recebe a todos que a procuram, sejam crianças ou adultos, aflitos com: quebranto, vento caído, mal jeito, cobreiro, dor de dente, dor de cabeça, dor de ouvido, espinhela caída, e tantas outras dores que assolam o corpo e a alma.
Aos 87 anos de idade, Maria do Luiz Bento se mantém pronta e ativa, quando o assunto é servir ao próximo, sua energia contagiante e sua fé inabalável são um exemplo para todos que a conhecem. Em suas mãos, as rezas se transformam em bálsamo, aliviando dores e restaurando a esperança.
A história de Maria Francisca da Rocha é a personificação da bondade, do amor, da solidariedade, e do exemplo que Jesus Cristo deixou na terra, que é o de fazer o bem sem olhar a quem, sobretudo aos mais necessitados. Seu sorriso acolhedor, suas rezas poderosas e sua disposição em servir ao próximo, é um legado que inspira e emociona. Que sua luz continue a iluminar a comunidade de São Miguel, levando alívio, conforto e cura para todos que buscam em sua fé, um refúgio para suas dores.
Reflexão
A homenagem que prestamos aos Rezadores, como Seu Joaquim e Dona Maria, ecoa como um grito de gratidão em meio ao silêncio do esquecimento. Quantos corações aflitos buscaram alívio em suas mãos, a qualquer hora do dia ou da noite? Quantos encontraram a cura onde a medicina não alcançou?
O reconhecimento divino é certo, mas o reconhecimento humano, por vezes, se esvai como a brisa. Quantos daqueles que foram ajudados se lembram de um cumprimento, de uma visita? O tempo, implacável, tece véus sobre as memórias, obscurecendo o valor de quem tanto fez.
Esta homenagem, portanto, é um farol, um chamado para que esses benfeitores jamais sejam esquecidos. Que suas histórias sejam contadas e recontadas, para que inspirem novas gerações a cultivar a fé, a solidariedade e o amor ao próximo. A história de Seu Joaquim e Dona Maria é um tributo a todos os Rezadores do Nordeste, aos que ainda estão em plena ação e àqueles que já partiram deixando um legado de cura, amor e fé.
Edgleson Lima
3 de abr. de 2025
O HOMEM QUE TOCOU FORRÓ NO INFERNO
O texto que você está prestes a ler, "Forró na Casa do Coisa Ruim", convida-nos a uma reflexão sobre a convivência entre realidade e fantasia, resgatando histórias que animam o imaginário popular. Seja mito ou verdade, a narrativa de Felim Gato, o homem que tocou para um público insólito, ensina a importância de manter o bom pensamento, a boa palavra e o respeito às tradições antigas, como forma de honrar nossos ancestrais e preservar a essência de nosso ser. Em tempos em que a verdade se esconde sob múltiplas faces, este conto nos relembra que as boas ações e os princípios éticos sempre nos conduzirão a um lugar de luz e paz.
À medida que exploramos estas páginas, sejamos inspirados a olhar além do superficial, buscando em cada história a sabedoria que nossos antepassados tão carinhosamente preservaram para nós. Que a leitura nos guie a uma reflexão sobre o poder das palavras e das ações gentis, demonstrando que, mesmo em meio ao mistério, o respeito e a verdade devem prevalecer.
Apresento-lhes, mais uma História narrada por Otacildo Rocha.
Edgleson Lima
Forró na Casa do Coisa Ruim
Na comunidade de Jardim, zona rural de Quixeramobim - Ceará, um lugar agradável às margens do riacho Forquilha, vivia um senhor simpático, por vezes sério, tão magro que causava pena. Tinha olhos cativos e fundos, de um azul intrigante e calmo. As rugas dos braços pendiam devido ao tempo de vida. Gostava de ficar no alpendre à tarde para bulinar os dedos nos punhos da rede e, por vezes, num tamborete sempre encostado ali por perto. Tinha ritmo nos dedos e se balançava, lançando seu olhar profundo nas coisas superficiais.
Seu nome era Felim Gato. O sobrenome, na verdade um apelido, era comum a toda família. Veio do "Santo Gato" da velha geração e depois passou à nova, que não eram santos, mas gatos. Isso ainda acontece no sertão: se o pai tem um apelido marcante, os filhos o acompanham por serem "filho de fulano de tal". Da família dele havia Zé Gato, Mané Gato e outros gatos menos conhecidos, que não convém citar, pois a família ali era numerosa e abastecia toda a cercania. Um exemplo: o filho de seu Felim, afilhado de minha avó, era Antonio do Felim Gato. Uma curiosidade marcante é que quase todos tinham nomes de santos.
Dona Virginia, a esposa de Felim, era irmã de minha avó, que a chamava de comadre Vigina. Eu a chamava de tia Vigina. Minha avó dizia que uma vez ela se recusou a receber a fortuna de uma alma penada. Nesse tempo, acreditava-se que as almas voltavam do além para mostrar a certas pessoas um dinheiro guardado, muitas vezes nas casas antigas, embaixo de tijolos ou batentes. Era obrigação das almas voltar, sob pena de arderem no fogo do inferno.
Uma dessas almas apareceu para tia Vigina. Ela, de tão honesta e orgulhosa de sua honestidade, gritava: "Não quero fortuna de ninguém, só quero o que é meu!" A alma insistia, aparecendo para ela sempre no mesmo horário. Vigina recusou e, ao final, a alma lhe disse: "Não olhe para mim quando estiver saindo." Ela olhou e viu o corpo da alma em chamas se perdendo na escuridão da madrugada. O povo daquele tempo era criado com regras, tinha suas virtudes, principalmente em casos de posses ou dinheiro. Se não fosse conseguido com suor, não era sagrado.
Voltando a Felim, seu esposo, este tinha uma cicatriz em uma das pernas e uma história curiosa por trás daquela ferida que nunca curava. Certa feita, quando ainda rapaz, ele se pôs a tocar acordeão. Arrumou uma pé de bode e animava os terreiros do lugar. Às vezes era chamado para tocar, outras vezes saía sozinho sem destino, sem dizer para onde ia.
Numa dessas vezes, ele selou o bom cavalo que tinha, pegou a pequena sanfona e a lançou nas costas ao anoitecer. A mãe, preocupada, gritou: "Meu filho, você vai tocar aonde?"
"Mãe, do jeito que estou arretado hoje, se me pagarem, vou tocar até no inferno", respondeu ele.
A mãe, assustada, retrucou: "Bate nessa boca, menino! Não diga má palavra!"
Ele, que estava calado, calado ficou. Saiu a galopar no seu cavalo de marcha mansa. A família de Santo Gato sempre teve traquejo com animais; eram todos alinhados e bem conservados. Seus cavalos eram respeitados no lugar pelo fino trato e mansidão.
Felim deu nas rédeas e o cavalo saiu obediente pelas estradas escuras. Na primeira entrada rumo à várzea de cima, havia um grande pé de juazeiro onde costumeiramente as pessoas ficavam para se abrigar da chuva ou do sol. Diante dele, um sujeito muito bem vestido, de chapéu e cara solene, o interpelou:
"Para onde o senhor vai tão apressado?"
"Procurando diversão", ele disse.
"Quero que toque na minha casa."
"Me pagando, eu toco em todo lugar", respondeu Felim.
O outro respondeu: "Pois bem, entre nessa vereda e faça carreira. Encontrará uma casa com um portão de ferro à frente. O portão se abrirá e você siga o rumo da venta. Lá dentro, a casa estará cheia. Comece a tocar e não se preocupe, será bem recompensado ao final."
Felim fez tudo que o desconhecido disse e foi seguido por ele. Viu o portão negro e lá dentro um mar de gente o aguardava. Sentiu uma espécie de sombroso na hora, mas não se apequenou. Puxou seu fole e danou-se a tocar sem se ater ao fato de que andava em terras estranhas. A multidão animada puxou por ele e tudo estava correndo dentro da normalidade. Notou que o tempo não andava e a noite nunca chegava a seu fim. Os dedos começaram a doer de tanta música, mas a multidão pedia bis.
Foi então que notou algo errado: alguns deles tinham rabo e outros, chifres. Não era gente desse mundo, certamente. A música o tinha inebriado, mas a realidade começou a aparecer diante de si. Levantou-se para ir embora, mas a reação negativa dos donos da casa o interpelava.
"Não, o senhor só vai embora quando o sol sair. Será bem recompensado, pode ter certeza", diziam. Felim tocava e nada do sol dar notícias. Num desses intervalos, ele sacou sua sanfona, fez finca-pé e danou a correr no meio daqueles seres estranhos. Foi então que um deles gritou: "Atalha o homem, que ele está fugindo!"
Muito depressa, Felim pulou no seu cavalo, que ligeiro obedeceu às esporas. Ao ver o grande portão, ele se abaixou como quem vai derrubar uma rês. Na passagem, um dos seres empurrou o portão para fechá-lo rápido, e foi nesse instante que sua perna foi atingida, provocando o ferimento.
Esse fato foi narrado muitas vezes por ele ao longo de sua vida, e até hoje o pé de juazeiro está lá, sendo citado por muitos como a entrada para o inferno. Quando contava esse fato, Felim dizia ter visto nessa festa muita gente do lugar que já tinha morrido há anos. Gente conhecida, dizia com graça. Não sei se era por ironia ou por pura loucura, até citava o nome de alguns. Isso não o fez parar de tocar. O que o intrigou realmente foi que alguns tinham rabos e chifres. Disse que correu com medo de ficar lá para sempre.
Anos depois, ao ler a Divina Comédia, lembrei-me dessa história de Felim e me perguntava: "Será que Dante fez o mesmo trajeto?" Esse morador humilde do Jardim nunca leu a Divina Comédia. Ouvia contar relatos de Lampião no inferno pelos poetas de cordel, e ele não era homem de meias verdades. Contava tudo aquilo com muita certeza, e o que me intriga é que o trajeto citado por ele ainda hoje está lá: a estrada, as árvores e cercas pelo caminho.
Já no fim de sua vida, o povo dizia que ele guardava dinheiro por dentro dos matos. Saía ao fim do dia sempre sozinho. Se alguém o via, ele torcia o caminho e entrava misteriosamente em outras direções. Do nada sumia. Carregou essa sina de viver envolto em mistérios que, para mim, não eram lendas. Como escreveu o poeta Fernando Pessoa, "grandes são os desertos e tudo é deserto".
Otacildo Rocha
2 de abr. de 2025
ANTONIO CHICO: O HOMEM QUE VIRAVA BICHO
Na vastidão do sertão cearense, onde a realidade muitas vezes se mistura com o imaginário popular, surgem histórias que desafiam nossa compreensão do mundo. Entre essas narrativas, destaca-se a figura enigmática de Antonio Chico, um homem cuja existência transcende os limites do ordinário e nos convida a explorar as ricas tradições orais do Nordeste brasileiro.
Antonio Chico não era uma simples lenda, mas um indivíduo de carne e osso que viveu entre as décadas de 1960 e 1980 na comunidade de Lagoa Cercada, no interior de Quixeramobim, Ceará. Conhecido por sua suposta habilidade de transformar-se em qualquer animal, tornou-se uma figura central no folclore local, inspirando tanto fascínio quanto temor entre seus conterrâneos. As histórias sobre o mesmo são tão variadas quanto intrigantes, relatos de testemunhas oculares descrevem as proezas de Antônio, como: de homem se transformar em animais domésticos, suas jornadas noturnas sob o luar do sertão e sua capacidade de cobrir grandes distâncias em questão de horas. Embora alguns vissem nele uma ameaça, a maioria o reconhecia como um homem do bem, pois o mesmo mantinha um profundo respeito por sua comunidade.
Essa narrativa não é apenas uma curiosidade local; ela representa um importante patrimônio cultural imaterial do sertão nordestino, são um reflexo direto da cultura, crenças e valores de uma comunidade, ajudando a manter viva sua identidade . Hoje, décadas após sua existência, a história de Antonio Chico continua viva na memória coletiva das comunidades circunvizinhas. Seu legado serve como um lembrete da riqueza do folclore brasileiro e da importância de preservar e celebrar nossas tradições orais. Ao resgatar e compartilhar histórias como a de Antonio Chico, não estamos apenas contando contos fantásticos; estamos mantendo viva uma parte crucial de nossa herança cultural, que nos conectam com nossas raízes, desafiam nossa percepção da realidade e nos lembram da magia que ainda existe no mundo, especialmente nos recantos mais remotos do nosso vasto Brasil.
Digo daqueles do sertão (Antônio Chico)
“Eu corro as sete partidas do mundo e me deito aqui perto onde o senhor deixa seu carro. Lembra aquele cachorro preto de ontem ali uivando? Sim! O outro dizia. Era eu mesmo a lhe vigiar”. Antônio Chico contava essas histórias com naturalidade, era de uma família de sete irmão e ele teve a incumbência de virar bicho, se transformava em tudo que fosse bicho doméstico, andava pelas estradas do sertão nas noites de lua cheia, mas tinha nele um respeito pelos parentes nunca se soube nada de ataques a pessoas de seu lugar saia mundo a fora sem paradeiro e antes da noite findar ele amanhecia em casa como se nada tivesse acontecido. Era homem de poucas palavras, mas tinha orgulho de sua profissão de virar bicho, dizia ele, basta um espojeito de bicho pra se virar na figura dele. Vó ouvia essas histórias no batente derradeiro da casa onde tinha uma espécie de tábua feita de aroeira, tão lisa dela sentar após fazer o café. Pelas horas do almoço ou no pingo do meio, lá vinha andando cangueiro com as duas mãos para trás, e os cachorros latindo, porque ele era um estranho largado, de barbas mal feitas e cabelo desalinhado, sentava no alpendre ou na área lá perto do quintal, era bom de fazer mandados e o meu avô sempre hospitaleiro gritava. “Senta aí Antônio Chico!” Ele obedecia, sentava no velho banco de madeira do alpendre e começava a contar suas aventuras para família de filhos numerosa, que ria de tais feitos e achavam ser metade fantasia, metade besteira mas nada o fazia calar. Dizia ter ido no Maranhão na noite anterior, ter passado em cantos perigosos de gente cismada com ele, teria corrido riscos de morte, mas era sua sina andar a vagar pelo vale estreito do destino, comia o que descem e se não recebesse nada também não reclamava, alguns tinham preconceitos com ele, diziam que quando se virava em cachorro corria atrás das galinhas no poleiro, ou agitava as ovelhas no cercado, mas nunca se soube de matanças de nada, uns acreditavam que tudo aquilo fosse ilusão ou esquizofrenia nos dias de hoje e com a chegada da luz de Paulo Afonso essas coisas de virar bicho tornou-se lenda.
Mas acredito piamente que aquilo tudo era verdade, ele falava de certeza e aí do vivente que duvidasse de suas andanças. Com frente a casa de oitão de meu avô Luiz, tinha um pé de benjamim enorme que cobria parte do terreiro, dizia que passava a noite a bolinar as porcas com ninhadas de bacorinho e por vezes se emparelhava com o jumento reprodutor do meu avô que de tão preto luzia no sol, vô tinha por ele uma espécie de devoção, ria de suas sandices e dizia: “se mexer com minhas criações é seu fim”, ele aflito exclamava: “Que é isso Seu Luiz! O senhor é da família, tenha medo não, que nesse trecho aqui eu não fico”. Realmente não ficava o destino dele era aquela imensidão de luar que cobria o vale forquilha, e saía a tanger pequenas serras e montes, becos de rio e pedras pontudas, furava o véu da noite com seu uivo penoso, e quando a mãe queria calar o menino danado saía a dizer: “se fizer muito arte vou chamar o Antonio Chico ele vai lhe botar num saco e levar pra onde ele for”. A meninada se pelava de medo dele, ficavam quietos com a chegada do homem, metade gente, metade mística que se assombrava com as ameaças de meu avô e seu rifle do papo amarelo pendurado pertinho do caritó.
Seu Luiz tem coragem de me matar mesmo? Perguntava ele preocupado. Vô ria com aquele olhar azul que foi puxado da bisavó Isabel, e soltava uma gargalhada. Antonio Chico tenha cuidado na tua vida! Ele calmo, reclamava: “seu Luiz é doido não, ainda sou seu parente”,ele era cismado com o rifle de meu avô sabia, que ao menor descuido meu avô o tinha na ponta da mira, mas vô era homem de paz, religioso e de boa índole, o diabo pega na mão do medo, Seu Luiz e o faz atirar, tem dessas horas que o cão atenta ele dizia: “Se preocupe não Antonio Chico, você não vai morrer de morte matada, sua sina é andar e correr pelas estradas, um dia você se aquieta na vida, meu avô tinha esses rompantes de profeta, participava ativamente da vida religiosa do lugar e era um homem de muita fé, acreditava que aquela pobre alma era realmente um ser de outra espécie, e respeitava sua índole, sabia que tinha pouco juízo e foi condenado a viver vagando, nunca foi de possuir nada, tinha essa desordem de pensamentos e nunca possuiu mulheres, não se sabia de quase nada de seus pensamentos apenas o viam como um bicho homem que se encostava nas casas pra merendar e contar seus feitos de meia noite em vante.
(Otacildo Rocha)




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